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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Livro e Filme: Memórias de uma Gueixa

Capa do Livro

 "Brilhante romance de estréia de Arthur Golden, é um verdadeiro tour de force: as confissões de uma das gueixas mais renomadas do japão, narradas com autenticidade rara e uma forma ainda mais rara de lirismo.Com uma voz ao mesmo tempo assombradora e absolutamente direta, a já idosa Nitta Sayuri nos conta as histórias de sua vida de gueixa. Conduzidos por essa voz, nós entramos num mundo onde o que mais conta são as aparências, onde pode- se leiloar a virgindade de uma criança, onde as mulheres são treinadas para enfeitiçar os homens mais poderosos, e onde o amor é desprezado como uma ilusão.Seu relato tem ínicio numa vila pobre de pescadores em 1929, onde a menina de nove anos é tirada de casa e vendida como escrava.Pouco a pouco, vamos acompanhar sua transformação pelas artes da dança e da música, do vestuário de maquiagem;e a educação para detalhes como a maneira de servir saquê revelando apenas um ponto do lado interno do pulso-armas e mais armas para as batalhas pela atenção e o dinheiro dos homens. Mas a segunda guerra força o fechamento das casas de gueixa e Sayuri vê-se forçada a se reinventar em outros termos , em outras paisagens.Rico de minúcias e revelando, à sua maneira, um conhecimento profundo da cultura e da história do Japão, Memórias de uma Gueixa já foi traduzido em mais de 15 países, menos de um ano após ser lançado." 

Filme:

O livro "Memórias de Uma Gueixa" atraiu a atenção de Steven Spielberg, que comprou os direitos para a adaptação para o cinema. Produzido pela Amblin (empresa produtora de Spielberg), o filme MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA teve um orçamento de 85 milhões de dólares e contou com velhos e premiados colaboradores do célebre diretor. A trilha sonora, premiada com o Globo de Ouro, foi composta por John Williams (maestro e diretor da Filarmônica de Boston, premiado com o Oscar pelas trilhas de "Tubarão", "Guerra nas Estrelas", "E.T." e "Indiana Jones"), e teve solos tocados pelo top star do violoncelo clássico, o chinês Yo-Yo Ma. A direção do filme foi entregue a Rob Marshall, premiado com o Oscar pela adpatação para as telas do musical da Broadway "Chicago", edição de Pietro Scaglia e figurinos de Colleen Atwood.

Curiosamente, apesar do alto investimento e da equipe de produção renomada, por não ter em nenhum dos papéis principais um ator ou atriz ocidental que servisse de "chamariz" de público (por exemplo, no caso de "O Último Samurai" havia Tom Cruise), os distribuidores americanos classificaram MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA como "filme de arte", o que fez com que o filme fosse exibido em poucas salas, no circuito alternativo quando de seu lançamento. Entretanto, salas lotadas e grande procura pelo filme levaram os distribuidores a relançar MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA em redes cineplex. O que a princípio foi considerado "filme de arte" pelos distribuidores, tornou-se um sucesso comercial sendo o quinto filme mais visto nos Estados Unidos em dezembro de 2005 (um feito relevante, considerando que "As Crônicas de Nárnia" e "Harry Potter e o Cálice de Fogo" estavam em cartaz na masma época), e sendo indicado em várias categorias para o Globo de Ouro, incluindo o de melhor atriz para Zhang Ziyi, que fez o papel da protagonista Sayuri.

Lançado ainda em 2005 no Japão, onde o título foi trocado para "Sayuri", o filme não causou o mesmo impacto que teve no ocidente e ainda foi objeto de inúmeras críticas, que de modo geral concluíam que MEMÓRIAS era um filme de gueixas "para inglês ver", ou seja, um filme caricatural que mais reflete uma imagem ocidentalizada e distorcida do Japão e das gueixas, do que um período da história recente do país. Embora a produção do filme tivesse procurado retratar do modo mais fiel possível o Japão dos anos 30 e 40, houve decerto alguns absurdos, como a seqüência da dança solo de Sayuri.

Usando um figurino de teatro kabuki contemporâneo e dançando uma coreografia visivelmente inspirada no butoh (dança contemporânea também conhecida como "dança do sofrimento"), a apresentação da protagonista ficou completamente fora de contexto, uma vez que ambos os elementos - o kabuki contemporâneo, que permitiu mulheres atuando no estilo e o butoh - surgiram no Japão só a partir da década de 70. Com os cabelos soltos, sandálias extravagantemente altas típicas das oirans (prostitutas, cortesãs da era feudal) e quimono branco, aos japoneses a personagem de Zhang Ziyi ficou mais parecida com as fantasmas tradicionais que, acredita-se, aterrorizam os vivos durante o o-bon (finados, no verão), como O-tei e Oiwa-san. Uma performance como a do filme, principalmente antes da guerra, teria chocado a platéia e marcado o fim da carreira da gueixa que o fizesse. Como o butoh é mais popular no ocidente que no próprio Japão, as platéias ocidentais devem ter gostado da seqüência, mas para os japoneses este foi apenas um de vários elementos que, na opinião deles, descaracterizou o filme. 
 Outra crítica constante no Japão foi a de que os papéis das principais gueixas foram entregues a atrizes não-japonesas (Zhang Ziyi que faz Sayuri é chinesa, Gong Li que faz Hatsumomo também, e Michelle Yeoh que faz Mameha é malaia) - uma escolha de elenco provavelmente ditada pela perspectiva de melhores bilheterias, visto que todas são atrizes já famosas no ocidente, do que pela adequação cultural aos papéis que interpretariam, o que exigiu delas esforço redobrado para representar gueixas de modo convincente ao menos para platéias ocidentais. Pode se fazer tal afirmação ao se observar que os papéis da gueixa Abóroba (Pumpkin) e o da gueixa-mãe, que embora secundários eram complexos e desafiadores, foram confiados a duas atrizes japonesas extremamente experientes e famosas no Japão: Youki Kudoh, que aos 34 anos conseguiu personificar uma adolescente Abóbora (Pumpkin), e Kaori Momoi, que além de consagrada atriz de cinema com mais de 50 filmes no currículo, é também cantora de sucesso com mais de 15 álbuns lançados. Já os principais papéis masculinos foram designados a dois atores que são verdadeiras celebridades no Japão: Ken Watanabe (mais conhecido como o líder Katsumoto em "O Último Samurai") e o premiadíssimo Kõji Yakusho, mais conhecido pelo salaryman Sugiyama-san, protagonista de "Shall We Dance? - Vamos Dançar?". 
Outro problema, de caráter técnico e cultural, referiu-se à maquiagem das gueixas usada no filme. Para as verdadeiras gueixas, a maquiagem tem, além do efeito estético, toda uma simbologia que carrega três séculos de história e tradição, sendo um importante traço cultural da gueixa. A base, que nas gueixas de verdade é aplicada em grande quantidade para formar uma máscara ultra-branca uniforme, foi usada de modo muito tímido nas atrizes, deixando transparecer o tom da pele e sobre a qual se aplicou blush avermelhado nas bochechas. É possível que a produção tenha usado menos base branca nas atrizes para evitar o efeito "cobertura de bolo" na hora de filmar (que ocorreu com a atriz Kate Blanchett na cena final de "Elizabeth I"), mas blush é um sacrilégio. Uma gueixa de verdade não usa blush nas bochechas - que é uma característica de maquiagem tradicionalmente considerada bela no ocidente e na China, mas não no Japão, onde pintar as bochechas só se tornou moda por influência ocidental no século XX e nunca foi adotada pelas gueixas.

Outro aspecto que aparentemente foi mal recebido no filme pelos japoneses foram decotes pronunciados na frente e nas costas dos quimonos, e a maquiagem em forma de "w" atrás do pescoço, que numa gueixa de verdade não passa da altura do ombro, mas que no filme chegou à metade das costas das atrizes. Algo que provavelmente foi feito com a intenção de realçar um aspecto de beleza "exótica" sob o ponto de vista ocidental, para os japoneses deu às gueixas no filme a aparência de oirans - a extravagância era uma característica delas - mostrando que o ocidente ainda confunde gueixas com prostitutas. Sem respeitar a correta aparência de uma verdadeira gueixa, para os japoneses MEMÓRIAS foi apenas um filme ocidental inspirado no Japão para ocidental ver, e que ao invés de esclarecer reforça alguns mitos e distorções sobre as gueixas.

Em que pesem as críticas no Japão, o sucesso da versão cinematográfica de MEMÓRIAS no ocidente tem alguns méritos inegáveis. É a primeira vez que Hollywood produz um filme de primeira linha sobre um tema oriental e com elenco principal totalmente oriental - algo inimaginável de ser feito uma década atrás. Há que se considerar, antes de mais nada, que MEMÓRIAS é uma história de ficção escrita por um ocidental, o que serve de desculpa para certos exageros cometidos em nome da dramaticidade e da natureza de show biz do filme, e não um documentário sobre uma gueixa da vida real. O filme também serviu para reavivar o interesse por um tema muito discutido porém efetivamente pouco conhecido pelo público no ocidente, que são as gueixas. E oxalá a partir do filme alguns venham a se interessar em saber o que são de fato as gueixas e como é o mundo delas - um mundo tão peculiar cuja existência só poderia ocorrer na sociedade japonesa.  

5 comentários:

Yu Kisaragi disse...

Esse filme/livro é muito lindo *-*
Ja li e já assisti o filme ..
Mas ainda prefiro o livro :3

Flávia Oliveira disse...

Prefiro o livro também!O filme mudou algumas partes da história ;/

Anônimo disse...

Bom artigo muito bem! Bem escrito, se houve erros ortográficos não interessa. A maneira como escreveu dando a sua opinião, depois dos outros e do povo japonês e mostra que tem cultura. Não é mais uma pessoa que gosta de animes, mangas, doramas etc... depois de substância mesmo sobre a cultura daqueles povos não sabe nada mas fala como soubesse pelas animes. Porque eu não critico quem só assiste mas nãoi desenvolve muito o seu conhecimento pela cultura oriental, mas também não apregoa sem saber. Critico quem não sabes mas só por ver animes, acha que já sabe tudo sobre o Japão e depois vÊ animes coreanas e nem sabe -.-'

Anônimo disse...

Acho errado pensarem que gueixas são protiutas, elas na verdade são artistas

Flávia Oliveira disse...

Sim. Há um equívoco muito grande em torno disso. Mesmo quem não é conhecedor da cultura japonesa (não que eu seja) sabe que a diferença entre uma gueixa e uma prostítuta já começa desde o traje, já que no japão as prostitutas usam o obi na frente, enquanto as gueixas usam um obi muito mais elaborado e bem amarrado na parte de trás da roupa. O porque disso é óbvio. Ser recepcionado por uma gueixa no Japão é privilégio de poucos, elas são artistas.

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